Você tem medo de quê?

Você me deu um soco, mas não foi meu corpo que doeu, tão pouco foram as marcas roxas, que ficaram na minha mente logo depois. Eu não liguei pra dor ou o motivo pelo qual estava fazendo isso. Eu não quis saber. Eu me obriguei a segurar as lágrimas e continuar andando até o colégio. Também me obriguei a sorrir quando me pediram para o fazer, mesmo que naquele dia estivesse doendo em mim as dores de uma vida toda.

sozinha em casa, queria o quê?”

foi a bebida, ele não teve culpa”

“supere, você não foi a única e tão a primeira”

“sabe o que pra ela faltou? Cautela”

Eu dormi, acordei, rezei à um deus que nada fez por mim e, mais uma vez, tornei a fechar os olhos. Não é que eu não tenha vontade de mantê-los abertos, nem que você, com seu jeito estúpido, sua covardia inigualável, tenha me feito perder a bondade.

Violada.

Violentada.

Abusada.

humilhada. 

Eu tive que dar tudo de mim, aos 11 anos de idade, para acreditar que cada palavra que você disse, até mesmo as mais cruéis, foram mentira, e apenas naquele seu acesso de poder sobre mim.

No final das contas, não foi.

Foram apenas mais uma das dezenas de verdades que viriam a ser ditas.

Você me deu dois socos, e não foi a dor que atingiu cada célula que me fez gritar, tão pouco foi a brutalidade com que você continuou. 

Não era pelo abuso de poder por um corpo ao qual não lhe pertencia. Não era pelas brigas, pelos sumiços, pelo isolamento “sem motivo” que eu me obrigava a dar depois disso. Tão pouco pelos dias que se passaram vivendo a mesma tragédia.

Eu estava gritando pela culpa.

indigestão.

Pela culpa por cada uma dessas coisas, a culpa pelo fato de ter ficado aquele dia, ou por eu nunca ter conseguido dizer o quanto algo me machucava. Foi pela culpa de não saber parar de sentir demais.

E, por Deus, como eu preciso parar de sentir. Preciso calar a voz na minha cabeça e começar a pensar por mim, ao invés de fazer tudo automaticamente.

E eu sinto muito, eu sinto muito, sinto por mim, sinto por você, pelos seus pais, seus amigos, suas filhas. Sinto muito por aquela minha irmã que um dia vai crescer. Sinto por tudo e pelo mundo inteiro.

Mas vou sentir de menos, vou abafar a voz.

“Todo mundo é fraco”

mas isso nunca dá o direito de usar essa fraqueza como arma. 

 

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Paradoxos

Ela sorri por dois dias seguidos, pra depois derramar rios de lágrimas sozinha. Diz que tudo bem não estar bem às vezes, mas no fundo sabe que não é nada disso. Ela diz pra mim, na maior cara de pau, que aquele gato inocente fez o estrago em seu pulso. Tola sou eu de acreditar. 

Aquela suavidade com que ela narra os problemas, aquele olhar sereno que ela me dá pra dizer que não é nada, que já vai passar, é só um dia cansativo e ela precisa dormir. No fundo eu sabia, ela precisava mesmo é colocar pra fora tudo que estava preso ali dentro, mas não conseguia. Sempre se fechava para o mundo, cada dia um pouco. Até que não sobre nem uma brecha sequer pro raiar de sol.

Seu sorriso era um choro disfarçado. Mas ela disfarçava tão bem que qualquer um acreditaria, talvez esse tenha sido o erro de todos nós.

Ela era do tipo que merecia o céu, um corpo perambulando por aí em busca de amor.

Eu era o caos, aquela que sempre gritava quando todo mundo parava de falar, que dizia coisas sem pensar, passava horas a fio sem perder a vontade de causar um pouco mais. Eu era a tempestade num dia calmo no mar, fazia mil e uma coisas, tinha mil e um projetos. Elevava a voz sempre que percebia o silêncio. Eu transbordava, gritava, sorria, chorava e pulava de alegria. Vivia o perigo todos os dias sem temer a morte. Eu era uma confusão de pensamentos.

Enquanto ela, ela era a calmaria.  Mantinha a postura, nunca elevava a voz mais que o necessário. Apenas um livro e um lugar calmo bastavam. Ela gostava da paz, do organizado, do silêncio. Tinha projetos sim, mas não os gritava aos quatro cantos do mundo. Ela fugia sempre que algo ameaçava sua estabilidade, sua vida monótona, seus desejos tão bem guardados que vinha até com um rótulo dizendo “não toque”. Ela era boa demais no que fazia, calma demais para aquele caos todo que era eu.

Ela era o fio de esperança. Mas naquele momento, era  toda a dor que sustentava o caos. Ela tinha falhas, eu as via toda vez que seu corpo escorregava pela parede do banheiro transbordando em lágrimas.

Eu era durona, cheia de mim, achava que podia enfrentar o mundo todo se fosse necessário. Preferia morrer a chorar.

Ela era feita de emoções. Chorava até por um oi mal falado, e nem se envergonhava disso.

Eu achava que ela era a solução pro problema que era eu. Tola fui eu, na verdade eu era toda insegurança que ela evitava. Todo caos que transbordava.

Eu fazia parte dela, mas ela nunca fez parte de mim. Eu era a intrusa ali.

E o pior, eu era a intrusa dentro do meu próprio corpo.